Colapso ou Transição? de Luís Queirós

"Aos que já perceberam a insustentabilidade do actual modelo económico, baseado na exigência do crescimento continuado do PIB mundial, coloca-se uma questão angustiante: podemos evoluir (ou transitar) para uma nova ordem económica (ou um novo modelo de sociedade) de forma gradual , ou está o actual sistema condenado a colapsar de forma brusca e inesperada?"

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Comentário de ManuelJ em 28 maio 2010 às 16:12
Nuno
Penso que a autonomia e a auto-suficiência serão características que qualquer comunidade procura, a começar pela comunidade base da sociedade, a família. Contudo, com isto não entendo inflexibilidade nesse aspecto, pelo contrario, a flexibilidade é desejável, torna as estruturas mais resilientes. Diria que o conjunto das comunidades, a tal rede de comunidades que falámos, possibilitará, aí sim, mais autonomia e auto-suficiência na medida em que se for alargando e que se estabeleça um sentido genuíno e crescente de cooperação, comunicação e partilha.

Bom, não conheço nenhuma eco-aldeia, mas entendo que qualquer comunidade, seja ela eco-aldeia ou outra, se se fechar em si mesma, terá muitas dificuldades de prosperar e até poderá fracassar. Primeiramente, entendo que estabelecer uma ligação com a rede de comunidades é fundamental, e se necessário, as ligações pontuais ao sistema também serão igualmente importantes. Não nos devemos esquecer que é ali que as grandes estruturas existem, e que “por acaso” também que as pagamos. Podem até ser defeituosas, mas mais vale assim do que nada. Mais uma vez, ponderação e flexibilidade com o exterior. No limite, o alargamento da rede levará ao estabelecimento de um novo “Sistema” com a tendência para a concentração do poder de decisão, a profissionalização dos cargos directivos , etc, aí teremos de voltar a pensar noutra coisa. Outra vez “small is beautifull” e para além disso, muito mais participativo, educativo e democrático.

A última parte da tua questão revela que tens essa preocupação com a ligação com o exterior para viabilizar o “projecto”: o empréstimo, as regras, a legislação, etc. Tenho acompanhado a vossa discussão no Grupo Eco-Aldeias, e se bem me recordo, essa é a preocupação geral. Também é a minha como acabo de descrever. A flexibilidade com o exterior é importante, foi a minha opinião.

No entanto, acho que esse não será o requisito primeiro para constituir comunidades de pessoas que pretendam viver muito próximo como é o caso das Eco-aldeias. O fundamental, em tudo, são as pessoas. As pessoas são determinantes para o sucesso de qualquer projecto, e penso que este aspecto não estará a ser devidamente debatido nesse fórum.

Tendo em conta as diversas escalas dos agrupamentos sociais, começando pela família, passando por associações, comunidades, empresas, até países e mesmo Humanidade, todos eles serão o espelho, o resultado, do que forem as pessoas que os compõem.

Esse deverá ser o nosso enfoque. Devemos nos conhecer bem antes de avançar para um projecto desse calibre. Tal como quando pensamos em constituir família. Não há procedimento, regra ou moral (é tudo o mesmo, serão sinónimos) que sustente entendimentos mal sãos. Tarde ou cedo a coisa rebenta.

Depois disso resolvido, as tais regras, legislação e tudo mais que nos preocupam, resolvem-se porque são pessoas (as tais) que as fazem e desfazem. O modelo em que vivemos e que provavelmente nos atrapalha, não é um modelo acabado nem nunca será. Este modelo está agora desenhado para as corporações, grupos de interesse e outros afins para resolverem os seus problemas. Mas hoje estás aqui, quando estiveres na casa dos quarenta estás na idade do poder e podes mudar as coisas. É por isso que andamos todos a abrir caminho para o futuro. Como alguém dizia o futuro começa hoje.

Um Abraço :-)
Comentário de Nuno em 19 maio 2010 às 23:48
Olá Manuel,

Perguntava também acerca da segunda condição de que falas, na sequência da minha primeira pergunta, em que mencionas alguns tipos de comunidades- o facto de serem pequenas (small is beautiful) e resilientes, relativamente a um sistema fracassado que as envolve isso quer dizer alguma autonomia e auto-suficiência das mesmas comunidades? Não quero dizer isolamento, mas parece esse modelo de muitas eco-aldeias que conheço, interpreto mal?

Digo isto porque em termos práticos por vezes para viabilizar a existência de coisas assim é quase impossível escapar a mecanismos característicos da sociedade, desde empréstimos bancários até legislação de ordenamento de território.

Cumps
Comentário de ManuelJ em 15 maio 2010 às 23:38
Nuno, peço desculpa mas só agora vi a tua questão, … e que questão! Vou ter que assumir riscos de dizer o óbvio, mas aqui vai:

Permite-me primeiramente um parêntesis para acertarmos conjuntamente o conceito de resiliência. Resiliência é a propriedade dos materiais, nomeadamente metais, de resistirem ao choque, daí a adaptação deste termo para às sociedades. E qual é o choque que as sociedades podem sofrer? Podem ser diversos. Estamos presentemente a sofrer um choque financeiro e a caminho de um choque fiscal, mas o Movimento de Transição foi desenhado para resistir ao choque energético, com consequências no sistema de produção e distribuição de alimentos, e foi isso que fez e tem feito mover as pessoas para a Transição. Por isso quando falamos de sociedades resilientes estamos a falar de sociedades resistentes ao choque energético que se avizinha, os outros não foram previstos (foi uma surpresa que nos fizeram. Adoram brincar connosco!).

Retornando ao assunto principal que é responder à tua questão.
Não será difícil aceitar que uma sociedade futura, sofrendo de escassez energética como se prevê, terá como paradigma a cooperação ou, simplesmente, não existirá, acabaremos todos à pancada. Portanto as condições para conseguirmos um Movimento de Transição resiliente serão:

- A primeira condição para a resiliência é aprendermos a ser cooperantes e estabelecermos uma cultura de cooperação. O individualismo actual não será suportável, ou como se diz agora, sustentável;

- A segunda condição deverá ser criar comunidades (cooperativas, eco aldeias, cidades de transição, hortas comunitárias, etc), tudo o que nos possa manter juntos, em contacto, como acontece aqui no PP por exemplo, e o objectivo de formar comunidades, é aprendermos uns com os outros, trocar informação, desenvolver processos. Existe no entanto uma condição: a dimensão das comunidades, e que deverá ser a adequada (sei que isto é dizer nada, mas cada comunidade saberá definir a sua). A minha opinião é que deverá ser pequena. “Small is Beautifull”.Ter uma dimensão humana, o que significa que cada um dos cooperantes tem de contar, a sua voz deverá ter influência, as estruturas deverão por isso ser horizontalizadas, não profissionalizadas;

- A terceira condição é estabelecer redes de comunidades resilientes, e isto pelos motivos anteriores, ou seja, para troca de experiencias e consequentemente, desenvolver o conhecimento. Estas redes permitirão também a difusão dos princípios do Movimento de Transição de modo cada vez mais alargado, ajudando a sustentar e consolidar o próprio Movimento. Porém, no estágio em que nos encontramos que se caracteriza por o Movimento ser ainda bastante frágil, acho que não se deve fazer uso dos media para essa difusão. Este processo levará o tempo que terá de levar, e tudo leva o seu tempo;

- A quarta condição será continuar a estabelecer o contacto com a sociedade actual. Ela existe, por isso não se pode ignorar. Vivemos todos no mesmo Planeta. Será de toda a conveniência a inclusão, na medida em que for sendo possível, de estruturas da sociedade actual tendo em conta que o paradigma de relacionamento é agora a COOPERAÇÃO, como vimos. E isso fará toda a diferença, assim como nos auxiliará a seleccionar esses relacionamentos, ou seja, se é para cooperar, sim; se não se verifica possibilidade de cooperar, não.

Concluindo e para responder à tua questão.
… como gerar um movimento mainstream … que pode alienar pessoas que não se revêem num grupo isolado?
Penso que num processo que nos arriscámos a descrever é pouco provável existir o sentimento de isolamento nas pessoas que abraçarem o Movimento de Transição.

Um Abraço :-))
Comentário de Karlos. Migvel Sovsa em 7 maio 2010 às 21:32
Esta é sem duvida uma questão tão interessante quanto abrangente. O actual modelo económico não está esgotado ao contrário do que possamos pensar. Repare-se que a China, India e em especial o Brasil continuam a crescer. Bem sabemos que no caso da China o crescimento actual é certa forma "empolado" e irreal, mas o verdadeiro colapso é o Euro-Americano, os EUA elevaram a "ganância" á sua maior potencia, mas reduziram de tal forma a base de beneficiários que hoje não passam de uma plutonomia apoiada por uma pressuposta democracia, parece-me a mim que tiveram a sorte de ter o Homem certo no momento certo. Audace Fortuna Juvat, ou talvez não.. certo é que Obama, tudo tem feito para tentar protelar a inevitável queda do império americano.

Por outro lado temos a nossa europa e o nosso pressuposto estado social, superestrutura do idealismo marxista e que foi alimentando o capitalismo á medida que este foi dispensando mão de obra, sem no entanto prescindir dos consumidores. É neste paradoxo que nos estamos a afundar, deixámos de produzir mas continuamos a consumir, resultado - "the never ending story" -o crescimento descontrolado do endividamento, á medida que a lenta, mas inexorável caminhada para a anarquia se vai verificando, substituindo gradualmente a oligarquia de interesses solidamente estabelecida em Bruxelas e Estrasburgo. Veremos até onde sobrevive o sonho europeu.

Até lá, e felizmente para todos nós nunca Portugal teve um povo tão bem formado e informado, e aqui é que reside a esperança no nosso futuro colectivo. Percebermos o que nos divide, e procurarmos o que nos une, transformando sinergias em beneficios para todos e passando da fé á acção. Abençoados os pobres de espirito e os ignorantes pois será deles o reinos dos céus, aos outros resta-nos a terra, este nosso magnifico planeta que tudo nos dá, sem nada lhe pedirmos. As crises são essencialmente campos férteis em oportunidades, assim nós tenhamos a humildade de espirito, a coragem & audácia, mas tambem a resiliência necessárias para sabermos mudar. Começando pelo mais dificil. Nós mesmos.
Comentário de Nuno em 7 maio 2010 às 19:59
Olá Manuel, sempre interessantes as tuas intervenções,

Falas da necessidade de resistir ao colapso de algo que permeia todos os aspectos da nossa sociedade e isto parece implicar a criação de algo autónomo, ou separado da mesma. Sabendo que até a educação está a ir pelo caminho do capitalismo de casino como gerar um movimento mainstream como pode e deve ser a Transição e manter ao mesmo tempo o distanciamento que permite a "resiliência" de que tanto se fala no movimento mas que pode alienar pessoas que não se revêem num grupo isolado?
Comentário de ManuelJ em 5 maio 2010 às 20:00
Marco
Entender como “transição” a mudança gradual do sistema capitalista em que vivemos (neoliberalismo) para um outro que ainda se desconhece, também estou de acordo que não acontecerá. Os que detêm o poder não vão abrir mão disso e cegamente vão empurrar a Humanidade para o abismo. Por isso acho que o colapso será inevitável.

É por esse motivo urgente que se adquira massa crítica suficiente (o PP existe precisamente para nos ajudar nisso) que nos permita implementar sistemas que sejam capazes de resistir ao colapso do actual sistema.
Qualquer sistema que assente na competição só é possível num mundo de abundância energética. Como, ao que parece, estamos em transição para uma situação de escassez energética, a cooperação deverá ser o paradigma de funcionamento duma sociedade futura.

A cooperação é exactamente o que se propõe nos princípios da Permacultura e portanto estamos certamente no caminho mais adequado para constituirmos, para já, sociedades minimamente resilientes. Depois logo se verá… estamos a palmilhar teritório desconhecido.

Um Abraço :-)

Mapper
Comentário de João Leitão em 5 maio 2010 às 11:23
Estou de acordo.
Comentário de Júlio em 5 maio 2010 às 11:12
Dadas as características do actual sistema económico (procura de novos mercados, competição selvagem, impossibilidade da coexistência de diferentes modelos económicos) parece-me não existir reforma possível, e por conseguinte é ilusório falar em transição no sentido em que esta possa significar o caminho para uma reforma global evoluindo do presente. Desde a perspectiva que aponta a iminência dum colapso brusco e inesperado, a ideia da transição continua válida no sentido de nos prepararmos e começarmos a criar alternativas para o que vier.

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