Uma história sobre o Movimento de Transição em Portugal e o Futuro?

Viva!
 
Quando penso no futuro do Hub Português da Transition Network, e no caminho que fizémos coletivamente até aqui, lembro-me de um dos ingredientes do Modelo de Transição e sinto que devo honrar a História do Movimento em Portugal e ao fazê-lo, é também uma homenagem à nossa colega de grupo Vanessa Sayers, minha companheira de vida, de projeto, e de Transição, que ela pratica todos os dias, com um extraordinário exemplo de Transição prática.


2007
 
Em Dezembro de 2007, antes de conhecer o modelo da Transition Network,  já estava claro para mim, que a fórmula, comunidade local sustentável, seria uma das mais interessantes e necessárias respostas para os seres humanos voltarem a ser genuinamente sustentáveis e felizes nas próximas décadas.
 
Foi no dia 23 desse mês, que a Rachel, proprietária da casa de Freemantle Road em Bristol, onde eu estava alojado, após uma conversa sobre a situação do mundo, me mostrou um panfleto em que constava a palavra "Transition".
 
No dia seguinte, na viagem de avião para Portugal, antes de pensar nos pitéus da avó para a consoada, e com uma consciência aguda da gravidade da crise financeira (em Março de 2008 faliu o Bear Stearns, em Setembro de 2008, o Lehman Brothers), questionava-me no como comunicar às pessoas mais próximas, a importância de repensarem o futuro, e sobretudo, agirem para se tornarem mais resilientes. As tentativas de comunicar as consequências de cenários alternativos para o nosso futuro, revelaram desde logo, um conjunto de mecanismos psicológicos, bem sintetizados por Nate Hagens, nomeadamente, a tendência para a dissonância cognitiva ou negação, que acontece naturalmente aos humanos, sempre que recebem informação desconfortável...


2008
 
No primeiro semestre de 2008, para além de mudarmos para Pombal (vivíamos em Lisboa), estudei aprofundadamente: a situação financeira, energética e ecológica; a biopsicologia que está na base duma consciência coletiva que perpetua o atual modelo económico e social insustentável; a história e aplicações da Permacultura; e o nosso Modelo de Transição, que me pareceu de imediato, uma esperança para sensibilizar mais facilmente as pessoas, dado o típico fenómeno de aculturação que acontece com países percecionados como mais desenvolvidos do que o nosso.
 
No dia 16 de Junho publiquei no meu blogue Horta do Vizinho, o primeiro vídeo sobre, as então "Transition Towns". No dia 19 de Junho, publiquei uma entrevista do Rob Hopkins.
 
No segundo semestre de 2008, dia 23 de Agosto, estive num evento organizado pela Quinta Cabeça do Mato, na primeira Transition Talk em Portugal, facilitada por Mandy Dean, com quem no final falei sobre a possibilidade de criarmos o Movimento em Portugal. Dessa conversa, nasceu um espaço de discussão ainda no domínio transitiontowns.org, entre a Mandy, a Annelieke, o Chris Ripley, e eu próprio, o primeiro percursor do "hub" nacional. A partir desse momento, decidi fazer tudo o que estivesse ao meu alcance para iniciar a Transição no nosso território.


 
Tentem imaginar alguém muito consciente da situação que vivemos, ainda por cima, com a noção de que a iminência do colapso de grandes bancos poderia levar a uma depressão económica, a tentar encontrar estratégias para apresentar uma proposta quase impossível: um movimento social com impacto individual, familiar, comunitário, local, nacional, global, num país, em que a economia crescia, com uma governação patologicamente otimista. Seria necessário muito trabalho, paciência, persistência, sorte, e criar exemplos...
 
Durante o Verão/Outono de 2008, a tempestade de ideias na família Sayers Leitão, resultou na criação de um projeto prático de Transição, capaz de tocar as pessoas. Ao mesmo tempo, senti necessidade de aprofundar conhecimentos de Permacultura e criar rede social real, com base no conceito que esteve na base do aparecimento da Rede de Transição. O Permaculture Design Course era referido como importante para o desenvolvimento de uma Iniciativa de Transição...
 
2009


O primeiro semestre de 2009, começou com a abertura da primeira Loja Coisas do Vizinho, dia 2 de Janeiro de 2009 e o início do Curso de Design de Permacultura nessa mesma semana, que permitiu consolidar alguns conhecimentos entretanto adquiridos como autodidata e abrir novos caminhos. Um dos quais, a Rede Social Transição e Permacultura Portugal, que desde logo, foi vista como a possibilidade de dar a conhecer a pessoas já sensíveis a outro modelo de desenvolvimento integral, o Modelo de Transição.
 
Em Fevereiro de 2009, criei o grupo Transição Portugal na Rede TPP, onde foram feitas a primeiras traduções de apresentações e partilhados documentos essenciais. Passado alguns meses, a Mandy Dean, convidou o Ben Brangwyn e a Steph Bradley com responsabiliaddes importantes na Transition Network, para a Rede TPP.
 
A nova e dinâmica Rede Social, começou a agregar os praticantes e curiosos de Transição e Permacultura em Portugal, e a ideia de criar uma associação começou a ganhar força. Neste processo, e depois da primeira representação portuguesa na conferência de Transição de 2009 em Londres, através do Tomás Marques, os dois decidimos organizar o primeiro colóquio sobre o tema, com o objetivo principal de divulgar e criar o Movimento de Transição em Portugal (a simplicidade voluntária..).


 
A Rede Social Transição e Permacultura Portugal, desde de finais de 2009, passou a ter como prioridade, facilitar o nascimento do Movimento de Transição em Portugal, e introduzir à comunidade de interessados em Permacultura, o Modelo de Transição. E chegamos finalmente ao crucial ano de 2010.


2010


De forma apaixonada e generosa, a Iniciativa de Transição de Pombal em sentido lato, foi a alma do primeiro colóquio sobre o Modelo de Transição e organizou o primeiro Curso de Transição, oferecendo à sociedade portuguesa, dois momentos de divulgação e reflexão sobre caminhos possíveis para um novo paradigma ético, mental e civilizacional.


Estas duas iniciativas, significaram dedicação, persistência, coragem, por parte dos organizadores, potenciando o registo das primeiras iniciativas na Transition Network. Por outro lado, a credibilidade que começámos a ganhar, deu origem a convites para diversos eventos, como por exemplo para o Glocal 2010 no Porto, o Congresso do Associativismo e da Democracia Participativa, e mais recentemente, para a Universidade de Verão 2011.

 
Tive ainda a iniciativa de contactar a Fundação Calouste Gulbenkian, tendo reunido em Julho de 2010, com o Prof. Viritato Soromenho-Marques, na qualidade de coordenador científico do Programa Gulbenkian Ambiente, que revelou abertura a uma futura parceria.

 

Depois do anúncio do primeiro Curso de Iniciativas de Transição, como alguns sabem, a família Sayers Leitão foi contactada pelo nosso primeiro potencial mecenas, a Fundação Volckart, tendo os seus representantes participado num almoço em Pombal, bem como organizado uma reunião a 2 e 3 de Novembro em Melides, onde também discutimos a minha responsabilidade como facilitador do processo de criação do Hub Português da Transition Network. Reunimos no dia 8 Novembro de 2010, em Lisboa, onde pela primeira vez foi definido um valor de apoio inicial no montante de 20.000 euros. O Hub Português da Transition Network parecia estar muito próximo da sua concretização.


2011


Já em 2011, reunimos em Pombal a 5 de Fevereiro, em Portalegre a 17 de Abril, e na Aldeia das Amoreiras, a 16 e 17 de Julho.


Desde Dezembro de 2007, entre outros assuntos, há dois temas que tento desenvolver de forma autónoma. Dinâmica de sistemas, ou seja, por exemplo, as relações entre o sistema de crenças dominante, o sistema financeiro e o sistema energético. O outro, tem que ver com pensar a cultura portuguesa, e portanto, avaliar as condições de aplicabilidade do Modelo de Transição à nossa forma de ser e estar.

 

Seguramente todos temos aprendido com o processo de trabalharmos em equipa. Estou certo que todos reconhecemos uma tendência para repetir um comportamento organizacional típico da cultura dominante.
 
Acredito no entanto, que todos compreendemos o que está em jogo em termos da nossa organização interna, e do que queremos oferecer à sociedade portuguesa, pelo exemplo.


 
Internamente, não pode haver falta de abertura e transparência; não pode haver o pequeno jogo de poder, mais baseado em interesses pessoais do que no interesse geral. Tem que haver humildade, serenidade, justiça, transparência e uma ética irrepreensível, de que todos devemos ser guardiões.
 
Por outro lado, temos que saber muito bem o que está em jogo para Portugal. Para mim, a Transição serve para criar comunidades locais mais resilientes e felizes, mas também para iluminar o cinismo dominante, típico do nosso país, isto é, mostrar pelo exemplo, que é possível criar Rendimento a cuidar da Terra e das pessoas. Criar uma história do nosso futuro coletivo que inverta a crescente desiguldade social e económica; injustiça geracional; sofrimento emocional das pessoas; concentração financeira e económica; consumos irresponsáveis e inconscientes, etc. 
 
Trata-se de decidirmos ser um catalisador de uma nova prosperidade ...


Grande abraço!

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Tags: permacultura, permaculture, portugal, transition, transição

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Comentário de David António da Fonseca Marques em 6 setembro 2013 às 17:35

Boa tarde João

Um projeto começa sempre na mente, seguindo depois pelas suas várias fases de concretização.

Gostei de tomar conhecimento da sumula acima descrita. Devem ter sido 3 anos de interessantes experiências agrícolas e humanas. Entretanto, decorreram quase mais 2 anos em que o grupo se foi ampliando em número e conhecimentos partilhados. Eu espreitei aqui ainda há pouco tempo, mas, considero deveras importante o caminho que tem vindo a trilhar, na luta pela mudança de mentalidades, com novos preceitos para disfrutar da NATUREZA sem a CASTIGAR e aproveitar da melhor maneira a vida que temos o privilégio ter, partilhando...

Venha lá a continuação da história.

Amplos êxitos.

Cumprimentos      

Comentário de Manuel Mendes Marques em 6 setembro 2013 às 9:04

Bom dia,

Felicito a iniciativa e o mérito demonstrado.

Já tomei a decisei de mudança e estou numa fase de adaptação à nova situação.

Cumprimentos


Mapper
Comentário de João Leitão em 5 setembro 2013 às 13:16

Grato pelas suas palavras Fina. Pode contactar-me pelo email: joaocleitao@gmail.com.

Comentário de Fina Cândido em 5 setembro 2013 às 12:51

Olá João Leitão!

Desejo-LHE Um Bom DIA.

Li a sua História ,agradeço profundamente a partilha e todo o trabalho que tem feito e está a fazer,pelo Exemplo,em prol de UM PORTUGAL AUTÊNTICO.

Também estou CONSCIENTE da situação que vivemos e conheço as suas causas nacionais e mundiais.Concordo plenamente conSigo quando diz: "Internamente, não pode haver falta de abertura e transparência; não pode haver o pequeno jogo de poder, mais baseado em interesses pessoais do que no interesse geral. Tem que haver humildade, serenidade, justiça, transparência e uma ética irrepreensível, de que todos devemos ser guardiões".

Já há alguns anos que iniciei projectos no campo.Sigo os Princípios da Permacultura.Já estou reformada.Sempre que posso sigo-vos.

Gostaria de poder falar conSigo.Através do meu e-mail,poderá mandar-me outros contactos?

Grata

Fina Cândido

Comentário de Ferdinand Antoine em 17 abril 2013 às 22:45

as pessoas deviam entrar aqui e verem a cultura que por aqui passa

Comentário de Ana Paula Duarte em 12 setembro 2012 às 20:00

Caro João Leitão

Acabei de ler o seu/teu texto. Fiquei deslumbrada e senti-me compreendida.

Gostaria de encontrar "o grupo". Vivo em Coimbra.  Há membros? Próximos?

Tenho pouco tempo disponível, mas vontade de aprender e "voltar a ter tempo".

Abraço,

Ana Duarte

Comentário de Manuel Azevedo em 31 agosto 2012 às 0:47

Olá João Leitão, depois de reflectir sobre a sua história, já compreendo melhor o quê e o porquê das coisas. Desde já obrigado pela permissão da minha aderência ao vosso projecto e que a transição seja mais uma correia de transmissão em tudo que englobe o ambiente a terra e o ser humano, um abraço.....

Comentário de Judite Maia-Moura em 1 janeiro 2012 às 22:29

Obrigada, João Leitão.


Mapper
Comentário de João Leitão em 1 janeiro 2012 às 17:11

Judite :)

Comentário de Judite Maia-Moura em 31 dezembro 2011 às 19:28

Olá João Leitão, olá a todos.

Entrei no Grupo em meados de 2010 (creio que foi assim).  Vivo no Porto e a minha caminhada já nos 70 não me permite acompanhá-los mais de perto, mas vou-os seguindo sempre através da Rede, de que nunca saí.

Muitas vezes falo no Movimento aos Jovens que me estão mais próximos, como sendo um exemplo para o tempo que corre e a vida que vivemos.  Creio que alguns, que se queixam muito, olham as "coisas" com valor com um certo cinismo, como dizes, João.  É muito mais cómodo queixarem-se.

O que posso assegurar a todos é que continuo a segui-los, no País e no Porto (e tenho pena de não estar mais perto de Pombal, sobretudo para cumprir uma promessa que fiz há mais de um ano ao Maurício e à Vera), e que continuarei insistentemente a dar o vosso exemplo, tentanto que, em vez de fazerem queixas, façam Transição.

Um bom e feliz 2012 para ti, João Leitão, e para todos, "Cada vez mais empreendedores, resilientes, simples e felizes!".

Beijinhos.

Judite

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